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Faltando uma semana para tarifaço, Brasil segue longe de acordo com EUA

Faltando uma semana para a tarifa de 50% sobre produtos brasileiros importados pelos Estados Unidos entrar em vigor, o governo federal parece distante de um acordo comercial com o presidente Donald Trump.

A avaliação de representantes do setor produtivo que participaram de diversas reuniões com o governo é unânime: a tarifa é insustentável e inviável para a indústria e o agronegócio nacional.

A falta de interlocução entre Brasília e Washington é o grande desafio a ser superado. Entre membros do alto escalão, até o momento, houve apenas uma conversa, de 50 minutos, entre o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, e o secretário do Comércio dos EUA, Howard Lutnick.

Segundo o vice-presidente, a conversa, que aconteceu no último sábado (19), foi longa e proveitosa. Apesar de revelar que a contato aconteceu, Alckmin não deu mais detalhes sobre quais foram os argumentos e opiniões do representante de Trump.

Apesar desse contato com o alto escalão de Trump, o próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad, admite dificuldades para dialogar com seu equivalente americano, o secretário do Tesouro, Scott Bessent.

Segundo Haddad, hoje a comunicação entre o Tesouro dos EUA e o Ministério da Fazenda ocorre apenas em nível técnico.

Ele também afirmou que as informações estão concentradas na assessoria da Casa Branca — ou seja, a palavra final, independentemente da posição dos técnicos, é do próprio Trump.

A despeito dos esforços, a equipe econômica alega que os canais de comunicação estão obstruídos por políticos e influenciadores ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Incluindo integrantes da indústria, do agronegócio e de big techs americanas, o governo já se reuniu com mais de 100 representantes do setor produtivo. As reuniões acontecem no contexto do comitê interministerial criado pelo governo para formular a resposta brasileira à tarifa.

O grupo iniciou as atividades em 15 de julho.

Nos últimos encontros com representantes do setor privado, Alckmin, que comanda o comitê, sinaliza que o próximo movimento do governo deve ser pedir o adiamento da entrada em vigor da tarifa. A intenção é solicitar um prazo extra de 60 a 90 dias.

No pedido, o governo deve argumentar que já há produtos brasileiros em portos ou em navios a caminho dos Estados Unidos, o que seria danoso para os contratos em vigência de produtores dos dois países. O governo admite, no entanto, que a possibilidade do pedido ser aceito pelos EUA é remota.

Individualmente, cada setor também faz pedidos específicos para a abertura de cotas que isentem seus produtos das alíquotas. Os setores da carne bovina e do suco de laranja apresentaram pedidos com o mesmo objetivo, por exemplo.

A possibilidade de o Brasil aplicar medidas de reciprocidade em resposta a Trump tem sido descartada, ao menos momentaneamente, por Alckmin. A estratégia do governo brasileiro, apesar do tom mais duro adotado em algumas falas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), é tentar conter os danos, segundo relatos.

Isso porque muitas tecnologias essenciais usadas pela indústria e produtores brasileiros são americanas. Soma-se isso ao fato de que, caso o Brasil taxe produtos dos EUA, Trump já sinalizou que poderia retaliar com tarifas ainda mais pesadas.

Outro ponto levado pelo setor privado nas reuniões é a necessidade de abrir canais de diálogo e enviar uma missão de autoridades a Washington para tratar diretamente do tema.

Uma missão de senadores embarca rumo aos EUA nesta sexta-feira (25) com o intuito de tentar abrir portas nas negociações. A ideia é marcar reuniões com congressistas americanos que tenham influência na Casa Branca. As reuniões acontecem entre os dias 28 e 30 de julho.

O setor privado, no entanto, já se mobiliza e deve começar, em breve, a enviar caravanas aos EUA para tratar diretamente com autoridades americanas, mesmo sem a presença do governo brasileiro.

Essa iniciativa já recebeu o aval de Alckmin, que vê nela uma oportunidade para abrir diálogo e exercer pressão interna nos Estados Unidos, já que, em alguns casos, os mercados são complementares.

Empresas dos EUA que trabalham com a logística de produtos brasileiros, por exemplo, podem ir à falência caso a tarifa entre em vigor.

A estratégia, no entanto, pode enfrentar obstáculos, já que nem o setor privado, nem os senadores envolvidos têm acesso direto à Casa Branca.

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