segunda-feira , 9 março 2026
Lar Economia Por que o governo Trump quer investigar o Pix?
Economia

Por que o governo Trump quer investigar o Pix?

O governo dos Estados Unidos anunciou, na terça-feira (15/7), a abertura de uma investigação comercial contra o Brasil.

A investigação, comunicada oficialmente pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), já era esperada e havia sido mencionada na carta divulgada pelo presidente dos Estados UnidosDonald Trump, na semana passada, em que ele ameaçou impor tarifas de 50% sobre produtos brasileiros.

Ao justificar as tarifas, Trump mencionou o fato de o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) estar sendo a um processo judicial que ele classificou como uma “caça às bruxas” e um suposto déficit na relação comercial entre Brasil e os Estados Unidos.

O governo brasileiro, no entanto, rebate as acusações afirmando que os americanos têm um saldo positivo na balança comercial com o Brasil de mais de US$ 400 bilhões nos últimos 15 anos.

Mas um dos fatores que mais chamou atenção na investigação anunciada nesta semana foi o fato de que, oficialmente, ela irá apurar eventuais irregularidades na adoção de um mecanismo que se tornou uma espécie de “paixão nacional” do brasileiro: o Pix.

A intensa adesão da ferramenta pelo brasileiro fez com que a “paternidade” do Pix fosse disputada politicamente. O mecanismo foi desenvolvido pelo Banco Central durante o governo de Michel Temer (MDB), mas foi lançado em novembro de 2020, quando o Brasil era governado por Bolsonaro.

No documento divulgado pelo USTR, o órgão faz uma menção indireta ao Pix como um dos motivos para a investigação contra o Brasil. Segundo o relatório, um sistema “desenvolvido pelo governo” poderia estar prejudicando empresas americanas que atuam no setor de pagamentos.

“O Brasil também parece envolver-se em uma série de práticas desleais em relação aos serviços de pagamento eletrônico, incluindo, mas não se limitando a promover seu serviço de pagamento eletrônico desenvolvido pelo governo”, diz um trecho do documento que não elenca a quais práticas supostamente ilegais ele se refere.

A inclusão do Pix na investigação do USTR causou reações em redes sociais e no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

“(Trump) Está preocupado com o meio de pagamento que um país adota, que é abraçado por todos, pela população, pelas empresas, pelo sistema financeiro, que é o Pix. É inacreditável algo dessa natureza”, disse o ministro da Casa Civil, Rui Costa, nesta quarta-feira (16/7), durante entrevista coletiva.

Ataque ao Pix?

A investigação sobre o Pix faz parte de uma recente investida do governo americano contra práticas supostamente desleais do Brasil no comércio internacional.

Além do Pix, a investigação vai se debruçar sobre temas como a falta de ações efetivas do Brasil no combate à pirataria e falsificação de produtos americanos, deficiências no combate à corrupção e até mesmo supostas vantagens que fazendeiros brasileiros estariam tendo sobre os americanos por plantarem soja e criarem gado em áreas desmatadas ilegalmente.

Esse tipo de investigação já foi utilizada recentemente pelos Estados Unidos contra outros países como a China e a Indonésia.

Para a economista e professora da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP) Carla Beni, um dos motivos pelos quais a administração Trump direcionou suas atenções ao Pix pode ter relação com os interesses de empresas americanas no setor financeiro.

Segundo ela, a implantação do Pix, que funciona como um sistema gratuito de pagamentos e transferência de valores, empresas americanas que atuam ou pretendem atuar no setor podem ter se sentido prejudicadas.

“As maiores empresas de cartão de crédito do mundo perderam mercado com o desenvolvimento do Pix e tendem a perder mais ainda com a evolução do serviço com a criação do Pix crédito ou Pix parcelado […] também temos o caso da Meta, que também pretendia entrar nesse segmento no Brasil”, diz Beni à BBC News Brasil.

Para a economista, isso a administração Trump estaria atuando tentando garantir mercados para empresas dos EUA.

“O governo está fazendo uma varredura onde as empresas americanas podem estar sendo prejudicadas. Do ponto de vista brasileiro, é um ataque à soberania do país, à medida que estamos falando de um sistema de pagamentos desenvolvido e implementado pelo Brasil”, afirma.

A menção a possíveis interesses de empresas americanas prejudicadas pelo Pix voltaram à tona nesta quarta-feira após o anúncio da investigação do USTR.

O caso que ganhou repercussão foi o da Meta, controlada por Mark Zuckerberg, um dos apoiadores de Trump e que esteve na sua cerimônia de posse.

Em 2020, a empresa controladora do Facebook, WhatsApp e Instagram, tentou implementar um sistema de pagamentos eletrônico baseado no aplicativo de mensagens WhatsApp no Brasil. O sistema se chamava “Facebook Pay”.

O sistema, no entanto, foi suspenso pelo Banco Central e pelo Conselho de Administração de Defesa Econômica (Cade).

Artigos relacionados

PF apura irregularidades em gestão previdenciária do Amazonas

A Polícia Federal (PF) revelou, nesta sexta-feira (6), que está investigando as...

Conflito no Irã não deve afetar exportações da Petrobras, diz diretor

A guerra iniciada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã e...

Galeão será hub internacional com voo direto para Nova York

O Aeroporto Internacional do Galeão passará a operar como um centro de...

Venda de veículos cresce 8,6% em fevereiro, diz Anfavea

A venda de veículos cresceu 8,6% em fevereiro na comparação com janeiro,...